Muito mais que ouro: Duda Cadore e suas jóias com alma

Ela nos recebe com um sorrisão na porta e manda logo a gente entrar. O apartamento é todo branco e as janelas grandes deixam entrar muita luz natural. As peças já estão sobre a mesa de jantar, e é impossível ignorar a beleza e o brilho dos anéis, brincos, pingentes e pulseiras expostos. Até quem nunca gostou muito de coisas pendendo do corpo esquece isso momentaneamente e quer todos aqueles objetos para si (falamos a partir de experiência própria). São delicadas, descoladas e despretensiosas – o tipo de coisa que é feita para ser usada diariamente.

– Vou fazer café pra vocês – ela anuncia, o sorriso gigante ainda estampado.

Eduarda Cadore, a Duda, é uma jovem gaúcha de 25 anos – o sotaque forte não nega as origens – que, há dois anos decidiu dar um passo grande. Em 2015, recém-formada em design pela UFRGS, ela se viu, como 99% dos recém-formados, sem saber ao certo que rumo tomar. Decidiu abrir a própria empresa de jóias.

Eu sempre gostei de pedras e acessórios. Mas o início de tudo mesmo foi quando uma amiga comentou que tinha feito um curso na Escola Gaúcha de Joalheria, e que achava que eu poderia gostar. Aí pensei: “ué, por que não?”. Me apaixonei. Era muito artesanal, aprendi a fazer coisas que eu não tive a chance na faculdade e que eu sentia falta. Não parei mais.

Enquanto o namorado e companheiro de apartamento está no escritório lidando com contratos jurídicos, Duda passa as tardes debruçada – literalmente – sobre a bancada que funciona como mini-ateliê. Ali, tudo é 100% artesanal: ela molda e manuseia peças como pedras – da ágata ao diamante -, prata e ouro. O parceiro oficial das jornadas de trabalho é Theodoro, ou Theo, para os íntimos, um vira-lata curioso, que observa atentamente os movimentos de Duda. “É terapêutico, mas dá trabalho”, admite.

Na verdade, o ofício começa bem antes, ao ar livre, em um lugar a 500km de distância de Porto Alegre. Nascida em Alegrete, a jovem viaja regularmente até a fazenda da família, onde, de galochas e olhar atento, ela recolhe as gemas que chamam a sua atenção.  

– Essas pedras têm uma aceitação muito grande dos clientes porque são diferentes e únicas, as pessoas acham fantástico que é exclusivo. Sabe o que é irônico? Antigamente, não era bom ter pedras nos campos por causa do solo, fica difícil de plantar, é ruim pro gado também. Então eu comecei a resolver um problema para a família (risos).

Duda também fala com entusiasmo sobre o mercado brasileiro. Se a ideia inicial era expandir para Londres, onde a irmã Daniela mora, o projeto caiu por terra: há muita demanda por aqui. Duda observa que muitas marcas locais olham para fora, buscam vender o colorido pra os gringos. Perceber que as brasileiras estão procurando peças minimalistas ainda é algo excepcional. Nesse sentido, a premissa do que é “precioso” ou “semi-precioso”, nos explica a designer,  já não existe mais. As pedras são todas preciosas – gostamos disso, tem um tom inclusivo. Se a ágata tem um histórico de ser desvalorizada, considerada uma pedra mais comum – a tendência é começar a brincar com a ideia de misturar elas com peças de ouro.  

O Rio Grande do Sul é um dos maiores produtores de ágatas do mundo. Por que não valorizar algo tão nosso? O segredo é fazer estruturas bem leves, a peça acaba não ficando tão pesada. E o preço também fica melhor.

Além de vender na loja online, com peças a pronta entrega, Duda recebe de dez a quinze encomendas por mês. A maioria dos clientes chega a partir do Instagram – Duda investe nos posts e conta com a ajuda da irmã, que é fotógrafa, e captura lindamente as jóias que Duda produz.

– Um cliente me perguntou esses tempos: “qual é o teu diferencial em relação a uma joalheria tipo a H. Stern?” Os meus fatores competitivos são o preço e a customização. Eu posso fazer algo completamente personalizado para cada pessoa.

No fim das contas, esse mesmo cliente desconfiado encomendou um anel com uma pedrinha de esmeralda, já que a filha estava se formando em medicina. Ficou super feliz com o resultado. Ainda sobre os desafios, Duda conta sobre a vez que, ao entregar um colar sob encomenda, a cliente ficou tão tocada com o trabalho, que disse que ia energizar a pedra – algo relacionado à mãe, que tinha acabado de falecer. Outro caso foi o do homem que bateu na casa de Duda pedindo por uma jóia de presente de aniversário pra filha. O inusitado foi quando ele mostrou um alfinete de gravata que a mãe tinha dado para o pai dele.

– Era uma relíquia de família, olha que baita responsabilidade! E ficou um anel lindo, ele adorou.

A designer se empolga quando fala sobre a importância das jóias. Sim, ela admite que a matéria-prima já é algo em si próprio muito valoroso para se ter. Mas, como defende Duda, as jóias têm sempre uma trajetória. De forma poética, ela nos explica que, quando passadas de geração em geração, elas percorrem um caminho e carregam uma história muito própria. Mais do que quantidade de ouro, o valor sentimental é o que dá o significado àquele objeto.

– O que caracteriza uma jóia, tradicionalmente,  são os metais nobres: ouro e prata. Mas quando falamos em joalheria contemporânea, temos como exemplo a Galeria Alice Floriano, onde a gente encontra peça de plástico. É uma outra categoria, é joalheria autoral, é arte.

O que mais, pra ti, é arte em forma de jóias?, perguntamos. Ela tem a resposta na ponta da língua: a coleção nova da Amsterdam Sauer. A joalheria fundada pelo francês Jules Roger Sauer, em 1939, sempre conseguiu se manter contemporânea e é a maior referência brasileira para Duda no momento.

Atualmente, além da loja online, é possível conferir as peças de Duda na Loja Pandorga, em Porto Alegre, e no Grande Hotel Ronaldo Fraga, em Belo Horizonte. Os planos para o futuro incluem um atelier próprio, e, assim que a empresa crescer mais um pouco mais, ter cursos de capacitação de artesãos. Ah, e uma ótima notícia: Duda quer ficar ainda mais acessível, e está, no momento, estudando alternativas para remodelar os preços.

Eu quero que todo mundo possa usar peças da Edore. Temos que acabar com a visão elitista de que jóia é para alguns poucos – finaliza, com o sorriso tradicional e Theo dormindo no seu colo.

 

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