Algo meio estranho no ar: seis meses em Mendocino

Qualquer um que procure por “Mendocino Califórnia” no Google vai se deparar com belas fotos de paisagens de estradas recortadas pelo oceano Pacífico, parques florestais, casas vitorianas. Nem tão abertamente divulgado é o fato de que o condado, no norte da Califórnia, também integra o Emerald Triangle, a maior região produtora de maconha dos Estados Unidos. A cidade foi eleita para ser pano de fundo do próximo livro de Carol Bensimon, autora dos livros “Todos nós adorávamos caubóis” e “Sinuca embaixo d’água” (entre outros).

Em 2012, a escritora esteve em Mendocino por alguns dias – o suficiente para despertar sua curiosidade sobre as contradições do local. Em 2015, ela decidiu ir além e passar dois meses por lá. E foi aí que ela decidiu escrever de verdade sobre os mistérios que pairam sobre Mendocino; em setembro de 2016 ela embarcou novamente com a missão de finalizar o livro de realidade/ficção (o plano é intercalar personagens inventados e histórias baseadas em fatos e pessoas reais). Recém-chegada da sua aventura californiana, Carol bateu um papo com a gente – mas sem revelar demais.

– Quase todo mundo por lá se envolve de algum jeito com maconha. Eu achei isso super interessante. Primeiro eu já estava fascinada com a paisagem, aí fui lendo sobre a história, sobre os hippies…

“Eu fiquei na cabana de um casal, a Sharon e o Mitchell, e eles mudaram a minha vida. Ele tem 82 anos e ela, uns 75”

A trajetória da maconha nos Estados Unidos daria um longo seriado (fica a dica, Netflix), mas o que se encontra é um ou outro documentário feito sobre o tema. Tudo começou quando mudas de maconha começaram a ser trazidas por imigrantes mexicanos no início do século XX. De acordo com o documentário “Grass: A Verdadeira História da Marijuana” (Ron Mann, disponível no YouTube), os Estados Unidos proibiram o uso da planta após boatos de que a erva transformava os mexicanos em assassinos e, logo em 1914, o município de El Paso criou uma lei proibindo a posse de maconha. Em 1930, Harry Aslinger assumiu a comissão nacional de narcóticos, se tornando o combatente mais ferrenho da substância de todos os tempos. Tinha início, então, a conhecida “war on marijuana” – estima-se que o governo estadunidense tenha gasto mais de 200 bilhões na “guerra”, que envolveu muita propaganda, leis proibitivas e a criação de um órgão federal especialmente para drogas, o DEA (quem lembra de Narcos e Breaking Bad?), implantado durante o governo Nixon. Nos anos 60, o movimento de contracultura atingiu o seu ápice: jovens protestavam contra o sistema e a guerra do Vietnã. São Francisco, a três horas e meia de Mendocino, se tornou o foco das atividades e greves. Os hippies queriam poder fumar em paz. Na verdade, nem só os hippies: nos anos 70, a maconha chegava aos subúrbios e a maioria dos presos por porte de drogas era composta por jovens brancos de classe média. Parte de tudo isso era a iniciativa “Back-to-the-land”, quando milhares de cidadãos desiludidos renunciaram à vida urbana e partiram para o interior, em busca de vidas simples e reconexão com a natureza.

E o que aconteceu? Jimmy Carter assumiu a presidência, causando uma reviravolta na história toda. “Carter says yes” era um dos slogans durante a campanha – após sofrer grande pressão para descriminalizar a substância, a grande virada veio quando ele propôs que cada estado decidisse sobre o assunto. E aí aconteceu o boom, a conhecida época da marijuana everywhere: a maconha estava nos parques, nos filmes, nas letras de música. O que não durou muito e, na verdade, causou um movimento oposto da direita conservadora. Reagan surgiu com o seu “Just say no”, demonizando novamente o uso da maconha. Em 1996, a Califórnia legalizou, enfim, o seu uso para fins medicinais, e, em novembro de 2016, para fins recreativos. Mas ela ainda é considerada ilegal a nível federal, o que causa insegurança e incerteza quanto a seu caráter efetivo.

Resumindo: não é um tema nem um pouco fácil de abordar. Durante a sua estadia, Carol pesquisou muito sobre o assunto – e o mais legal: conheceu pessoas e histórias que complementaram o enredo do livro. Segundo a escritora, a média de idade da população é bem alta por causa de todos esses ex-hippies que foram pra lá. Dois deles, inclusive, se tornaram os melhores amigos de Carol.

“Quase todo mundo por lá se envolve de algum jeito com maconha”

– Eu fiquei na cabana de um casal, a Sharon e o Mitchell, e eles mudaram a minha vida. Ele tem 82 anos e ela, uns 75. E eles são sensacionais, me apresentaram vários amigos. E tudo nessa faixa dos oitentinha (risos).

Além de apresentar uma nova ideia de terceira idade (Sharon e Mitchell têm uma vida na natureza, se divertem, fumam maconha todo dia), contaram sobre como viveram em comunidade e viajaram o mundo e ainda mostraram como se usa um vaporizador de maconha ao amigo Tobey, de 92 anos. Os amigos são que nem eles, cheios de histórias, deixam o cabelão grisalho e não se preocupam muito como se vestem. Carol transformou alguns deles em personagens do livro (a ideia original, inclusive, era ter um protagonista brasileiro, professor de história, chamado Arthur. Ele não caiu fora, mas os outros personagens acabaram se tornando mais importantes do que o inicialmente planejado), além de se inspirar muito na paisagem do local.

– Eu fico intrigada por que certo lugar toca mais uma pessoa e a outra não. Nunca tive nenhuma grande ligação com mar ou com litoral, mas acho que tem algo de dramático naquela paisagem. Essa coisa de ter praia e floresta é incrível.

É muito massa ver o quanto Carol se envolveu emocionalmente com tudo que envolve Mendocino – desde a família de cervos que morava no seu jardim (!) até a indignação com os turistas que evitam chegar à cidade (“não tem nenhuma dificuldade, as pessoas são tão preguiçosas!”). Ok, Carol, quando estivermos na Califórnia daremos um pulo lá por ti. Ou te visitaremos, quem sabe?

“Nunca tive nenhuma grande ligação com mar ou com litoral, mas acho que tem algo de dramático naquela paisagem”

O livro já está em processo de finalização e está previsto para estar nas livrarias no segundo semestre de 2017. Quem já estamos contando os dias?

Fotos: Carol Bensimon
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