O grande hotel de Ronaldo Fraga

Belo Horizonte ganhou um novo hotel, mas ele não hospeda viajantes. O novo endereço de Ronaldo Fraga, inaugurado em dezembro, recebe empreendimentos criativos de outros locais do Brasil – e de fora dele. Localizado em um casarão do bairro Funcionários, zona tradicional da capital mineira, o local reforça a relação de afeto que Ronaldo tem com a cidade e vai na contramão da tendência varejista que busca a segurança dos shoppings centers. O estilista explica:

Justamente por eu me envolver em tanta coisa, em desenho de mobiliário, em trabalhos com cooperativas, as pessoas me cobravam: mas onde a gente vê tudo isso? Então eu decidi montar um hotel para hospedar todas essas coisas, esse saberes e fazeres. E depois a coisa cresceu, e eu sou o curador. As pessoas me mandam material, deixou de ser simplesmente a apresentação de coisas com a minha assinatura, mas sim de coisas que eu comungue o fazer e o pensar.

O Grande Hotel Ronaldo Fraga já tem agenda ativa. Aos sábados, acontece uma feira orgânica e chefs de diversos locais são convidados a servir o almoço. Além disso, estão previstos saraus,  workshops, filmes e apresentações musicais. Alguns hóspedes são fixos e ajudam a dar o tom da casa, como a primeira unidade da Barbearia Cavalera fora de São Paulo, o tradicional café Dona Diva, conhecido por ter o melhor pão de queijo da cidade, e o espaço destinado à alfaiataria de Rodrigo Fraga, irmão de Ronaldo.

Em uma rápida conversa, Ronaldo nos falou um pouco sobre o cenário atual de Belo Horizonte e como ele vê o futuro da moda no Brasil.

Belo Horizonte sempre foi conhecida pelo seu forte movimento cultural e criativo. Como você vê a cena atual da cidade? Quem é essa nova geração de designers e empreendedores mineiros?

Eu sempre fico com a sensação de que já tivemos dias melhores – não só na cidade como no país, pois Belo Horizonte acaba sendo uma síntese do que está acontecendo no Brasil. Acho que já houve uma cena criativa até maior do que a atual. Mas em todo o tempo vai haver um grupo resistente e a geração que está vindo consegue pensar de maneira interdisciplinar, o que eu acho bem bacana. São designers gráficos flertando com a moda, fazendo vídeo, mexendo com a música. Estão menos compartimentados do que quando eu comecei.

Fala-se bastante na influência do excesso de informação na nossa criatividade e na inovação. O velho duelo entre imitação e inspiração ressurge, e ainda temos a apropriação cultural aquecendo essa problemática. Como tu te posiciona em relação a isso tudo, e onde há espaço para continuar inovando na moda?

Colocando a moda para estabelecer diálogo com outras frentes, caminhar por terrenos em que ela ainda não tenha caminhado. E sair dessa posição ensimesmada a que ela acaba nos levando, de olhar pro próprio umbigo. Acho que esse é um dos caminhos para moda oxigenar.

O fast fashion tem se mostrado em crise – não por acaso, parcerias e coleções assinadas estão cada vez mais comuns. Por outro lado, a concorrência desleal do que é produzido em massa, onde as condições de trabalho são duvidosas (pra dizer o mínimo), dificulta a viabilidade comercial da produção justa e local. Vamos chegar num ponto de equilíbrio, sustentável, para a indústria da moda?

O fast fashion vem pra atender uma coisa matemática, que é o aumento da população, e dar acesso às pessoas ao consumo daquela roupa e tal. Como muitos dizem, e talvez tenham razão, o movimento fast fashion tirou a magia da moda. Mas por outro lado tem valores que a moda tinha perdido e que hoje são o novo luxo: fazer uma roupa com alfaiate, você ir a uma determinada cidade porque só lá você vai encontrar aquele designer. Foi dado status de luxo a saberes e fazeres que antes eram corriqueiros. Eu acho que a tendência é a convivência pacífica de tudo isso. E cada vez mais o consumo dessa moda que emociona, que fala de outras coisas, vai demandar um background cultural do consumidor.

No fim do mês de março, Ronaldo embarcou em uma viagem de cerca de um mês por Israel, onde vai aprofundar sua pesquisa sobre a cultura judaica, que já foi abordada na coleção de estreia do estilista na São Paulo Fashion Week, em 2001. Ele descarta a possibilidade de transformar essa experiência em uma nova coleção, mas ainda não sabe ao certo o que fará com o aprendizado. Nesse período, vai dar aulas em cursos de moda de Jerusalém e Tel Aviv, apresentando sua última coleção, El día que me quieras, cujo tema central é transfobia. Por enquanto, só nos resta aguardar.

 

Grande Hotel Ronaldo Fraga
Rua Cerará, 1205 – Funcionários, Belo Horizonte
+55 31 25554056

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