Spino: pela cultura do ciclismo

Imagine a seguinte história: 2008, um jovem estudante brasileiro se muda para Londres. Lá, evita andar de transporte público em função da grana e passa a se locomover de bicicleta – assim como outros milhares de jovens na cidade (na época, estima-se que 12.000 pessoas pedalavam pelo centro de Londres durante a hora do rush – o número triplicou em 2014). Quatro anos depois, ele volta para o Brasil e se depara com a falta de um mercado de bicicletas parado no tempo – sem variação de estilos e preços razoáveis. Meio que sem querer, frustrado pela falta de opções, ele começa a reformar bicicletas. Primeiro para ele mesmo, depois para um amigo, depois para um amigo do amigo, e por aí adiante. O caso de amor começa a ficar sério. Ele decide ir além: viaja a Portland (EUA), um dos locais com cena de ciclismo mais efervescente no mundo, e faz um curso sobre frame-building (termo que define o processo de construção de bicicletas de forma artesanal). Ele volta para o Brasil, onde se junta a outros dois jovens ambiciosos e criativos que são, como ele, amantes de bicicletas.

Assim nasceu a Spino: uma marca que, muito além de construir bicicletas, se propõe a fomentar a cultura do ciclismo no Brasil (além de Porto Alegre, eles atendem outras cidades, como Floripa, São Paulo, Brasília e Fortaleza). Batemos um papo com Luis de Assis Brasil, Victor Rosito e Alice de Oliveira, sócios da Spino, e falamos sobre pedaladas, experiência de compra e, claro, sobre os desafios e as alegrias em proporcionar uma bicicleta totalmente única para cada cliente.

Rafaela CCG: Vamos começar do começo. De onde surgiu a ideia de criar a empresa?

Luiz: Eu não sei direito. Eu sempre gostei de bicicletas e sempre tive muita curiosidade sobre a construção delas. O meu pai sempre foi um cara que se movimentou muito de bike. Ele se deslocava da zona sul até o Menino Deus, tinha almoço de negócios, vestido com roupa social e fazia tudo de bicicleta. E eu me lembro de ir do trabalho para a faculdade às 18h, momento de pico, e quase sempre chegar atrasado nas aulas. Até que eu me dei conta que poderia ir a pé, acabei pegando o skate, e meu pai disse: “pega a minha bicicleta” e aí foi. Me acostumei. Todo mundo tem uma volta para a bicicleta depois de velho, e essa foi a minha. E a verdade é que eu adorei, achei que se movimentar de bicicleta era muito bom. Isso era 2006, pouca gente andava de bicicleta. Era “coisa de pedreiro”. Na UFRGS, era a minha bike e a dos funcionários. Na UFRGS, era a minha bike e a dos funcionários. E aí eu fui pra Londres e fiquei quase 4 anos lá, mas logo que cheguei pensei que o transporte era caro pra caralho, e aí comprei uma bike. De uma velha comprei uma melhor e depois uma melhor… e nunca parei de ter bicicleta. E eu economizava horrores de dinheiro. Comecei a gostar e apreciar mesmo a coisa. Isso já era 2012. Vocês imaginam que o que a gente tem de bicicleta aqui não se compara, ta há anos-luz do que já era lá naquela época. Tinha um monte de bike shops ali pro lado de Paddington, do lado do East End, onde ficam as áreas de Brick Lane e Hoxton. Me chamava atenção… eles brincavam com coisas que a gente ainda ta flertando por aqui. E eu não tinha ideia da complexidade, ficava curioso. E eu tinha uma speed, cara, vendi para voltar e quando voltei pensei que ia comprar uma no mesmo estilo no Brasil. Só que eu cheguei aqui e não tinha nada, absolutamente nada. Cinco anos depois e Porto Alegre continuava a mesma coisa. Já tinha a Massa Crítica, já tinha rolado a história do atropelamento, mas em termos de bikes mesmo, pouca evolução. Aí eu comprei uma Caloi e reformei pra mim. Um amigo viu e pediu pra eu fazer pra ele. E aí surgiu: “tá, por que não fazer disso um negócio de verdade?” Só que todo mundo tinha outras atividades, outras prioridades. Demorou até o Rosito, que era meu colega de faculdade (de administração na UFRGS), chegar na minha porta e falar “Meu, vamos fazer sério. Eu coloco dinheiro, vamos fazer virar um business”.

Rosito: Nessa época a ideia era reformar bicicletas.

Luiz: Costumava ser super barato. Eu cheguei a pagar R$ 50,00 num quadro usado (quadro é o principal componente de uma bicicleta, onde as rodas e os demais componentes são montados).

Arthur CCG: Eu paguei 100 pilas na minha Caloi 10 (risos).

Rosito: Só que os produtos acabaram. As pessoas buscavam quadros, mas não tinha mais.

Luiz: Chegou a um ponto extremo da demanda que os quadros custavam R$ 500. Aí, claro, o preço foi se corrigindo. Começaram a surgir novas alternativas, novas marcas que existem hoje no mercado. Só que, claro, o mercado começou a ficar exigente. Aí vimos que ia amadurecer uma cena de ciclismo em Porto Alegre. Gente começando a priorizar produto bom e a Caloi 10 virando uma mera lembrança de como tudo começou. Aí eu decidi fazer o curso. Um builder lá, em Portland, me ouvindo contar (sobre POA), me disse: “o que tu descreve me lembra o mercado dos EUA há 15 anos”. E aí eu falei “opa! Isso é bem importante, a gente vai chegar lá também”.

Rosito: Aí começamos a investir em maquinário mesmo. Tudo isso era em Canela. Era muito rústico. Temos, inclusive, o primeiro quadro ali em cima, verde, todo tosco (risos). A ida do Luiz representou um ponto de virada muito importante para a empresa porque aí a gente teve a ideia do que era fazer bicicleta de verdade. Antes era algo “a gente vai juntar umas peças, pintar umas coisas”. Ele trouxe todo um conhecimento de como é o mercado americano de frame-building e aí resolvemos trazer o processo e o tipo de mercado para a realidade brasileira. Essa adaptação é o verdadeiro complicador.

“Antes era algo “a gente vai juntar umas peças, pintar umas coisas”. A ida do Luiz representou um ponto de virada muito importante para a empresa porque aí a gente teve a ideia do que era fazer bicicleta de verdade”

Luiz: Tudo custa muito caro. Tipo o gabarito – não dá pra trazer um gabarito pro Brasil por menos de R$ 20.000. E aí a surgiu uma outra opção, que foi o que eu aprendi com os meus professores do curso: construir tu mesmo as tuas ferramentas. Não é simples, claro, nós ficamos um ano e meio nesse processo de decidir o que era confiável, preciso. Não é o ideal, gostaríamos de melhorar muita coisa ainda. Mas já estamos bem mais perto… este é o grande desafio para um frame-builder hoje no Brasil: os entraves alfandegários.

Rafaela CCG: E aí depois disso entrou a Alice?

Rosito: É, o capítulo 2. O desenvolvimento da empresa. A gente queria alguém que nos ajudasse a trabalhar a nossa identidade. Era uma bagunça.

Luiz: Aí o Rosito trouxe a ideia da Alice. Eu já tinha feito uma cadeira com ela (Alice é do design e eles fizeram juntos uma disciplina eletiva), fizemos um trabalho de empreendedorismo juntos, a gente se deu bem, apresentamos juntos e vimos que tinha sinergia. Aí quando o Rosito trouxe a ideia eu disse “pô, eu gosto dela, foi minha colega, é uma boa”. Tínhamos um outro sócio, mas ele tinha uma ideia muito diferente do que a marca deveria ser.

Alice: Tinha uma marca, mas só. Não tinha um conceito fechado. Perguntei o que cada um entendia sobre ” o que é a Spino?”. Não havia uma unidade, mas eles começaram a conversar e a ganhar perspectiva e entendimento. Foi quando a empresa veio pra Porto Alegre.

Luiz: A Alice entrou pra ser nossa designer mas com o tempo a gente viu que ela era muito mais do que isso.

Alice: Eu entrei achando que era um freela (risos). Eu entrei para arrumar o conceito da marca, poderia ser algo pontual. Mas fiquei (risos).

Luiz: Não tinha sentido. Ela começou a se envolver e ter um papel mais profundo aqui, presente em todo o processo. E a gente nunca esteve num ponto tão bom quanto agora.

Alice: Faz pouco mais de meio ano que a gente se lançou de fato. Já desenhamos um processo de como as coisas funcionam. Sim: cada bike é única, mas o nosso processo produtivo tem regras. Padronizamos e enumeramos as etapas. Temos nossos amigos como clientes, mas como empresa não podemos tratar todo mundo como amigo. É importante profissionalizar a coisa.

Rafaela CCG: E como funciona esse atendimento? Se eu batesse na porta dizendo que quero uma bike, como seria?

Rosito: A gente deixa bem claro que cada bike que fazemos é única, totalmente personalizada. Primeiro, ela vai se adaptar à morfologia – pra isso perguntamos: qual o uso da bicicleta? Qual o tipo de trajeto? Que tipo de terreno? Como é o teu corpo? Há alguma limitação? Quais são as bicicletas que tu já usou? E a questão de identidade: tu transmitir algo teu através do teu meio de locomoção. A cor, o estilo, os próprios acessórios, os materiais. É por isso que a ideia é que seja sempre de co-criação. A gente não faz só bicicletas, a gente constrói projetos junto aos clientes, que são, geralmente, pessoas que já andam de bike. Tivemos só uma pessoa que comprou uma bicicleta pela primeira vez. De resto, vemos pessoas que andam de bike e percebem que podem fazer algo diferente, e então nos buscam. E tem um pessoal de fora (que nos busca). Vendemos pra Floripa, pra São Paulo, pra Fortaleza.

Arthur CCG: Que massa.

“A gente deixa bem claro que cada bike que fazemos é única, com a ideia de transmitir algo da tua identidade através do teu meio de locomoção”

Rafaela CCG: Como eles chegam até vocês?

Rosito: As indicações e o boca a boca de ciclistas que têm uma Spino ou que já andaram em nossas bicicletas é por onde muitas vezes as pessoas conhecem a marca. Nosso site (www.spino.bike) é um importante canal de vendas. Nas redes sociais, nosso Instagram é bem movimentado, e conseguimos transmitir muito da nossa identidade, processo e produtos Spino.  Além disso nos fazemos presentes nas comunidades de ciclismo no Facebook.

Luiz: Sentimos que os ciclistas ainda nos procuram com ideias bem tradicionais e referências de instagram em bicicletas. Buscamos incentivar projetos mais malucos e inovadores! Tanto em estrutura e componentes, como em materiais, já que muitos ciclistas têm interesse em ligas de aço-cromo para construção do frame, por exemplo.

Alice: Eu diria que um bom exemplo da “revolução”, no que diz respeito a demanda e experiência de compra, é como no caso de uma menina de baixa estatura, que por ser menor, não encontra uma bike “de adulto” pra ela. Não do jeito que ela quer. E às vezes acontece o inverso – pessoas muito altas que não encontram bikes para o seu tamanho. E tem a questão do peso também. Sabemos se o cliente tem 50 ou 150kg, o que faz muita diferença na hora de construir uma bicicleta leve, por exemplo.

Arthur CCG: E a SpinoLab? Existem planos de maximizar o projeto?

Luiz: Sim, a ideia é que a empresa toda se transforme nisso. Ainda temos que ganhar conhecimento de construções personalizadas. Eu ainda não sei se posso fazer qualquer coisa. Tudo tem que ser testado. Mas já estamos mais confiantes. Um bagageiro customizado, por exemplo, rola bastante. Ou uma estrutura para carregar algo específico na tua bicicleta. Temos um amigo que produz cachaça e ele buscava estrutura de carga para carregar mantimentos e produtos. E às vezes alguém pode querer fazer uma bicicleta híbrida: cruzar uma mountain bike com uma speed, com características específicas que vão demandar um tipo de quadro mais inclinado pra trás e ângulos projetados para frente. Dá pra fazer, tudo é possível. Então queremos trazer pras pessoas essa ideia: “Ei, tu pode personalizar tudo”.

Rafaela CCG: E a cena da bike em Porto Alegre?

Luiz: Eu acho o público de Porto Alegre maravilhoso no sentido de mente aberta, mas comedido para investir. Mas acho que a gente ta no lugar certo para começar o que estamos fazendo. Eu vejo que a gente tem valor pras pessoas. As pessoas veem valor e gostam da gente. O poder aquisitivo do Rio Grande do Sul tá fraco, isso pesa bastante. Mas estamos felizes que conseguimos vender pra fora e atender outros projetos. Porto Alegre nos ajuda muito talvez não no sentido de mercado, mas no sentido de parceiros, de ideias, de ambiente de negócios.

Rosito: Porto Alegre ta com um movimento muito grande e crescente no cenário das bikes.

Alice: E tem uma galera que vai lá e faz. Um bom exemplo é o evento que estamos participando no fim-de-semana pra reunir as pessoas que fazem a cultura da bicicleta aqui. Desde empresas que constroem produtos para ciclismo – e é impressionante como tem aqui – a grupos que estão fazendo pressão para o aumento de ciclovias e grupos de pedal. Tipo o pedal das minas, algo que cresceu muito.

Luiz: A cena de ciclismo em POA é impressionante. Só é comparável a São Paulo e Curitiba.

Rafaela CCG: Nos contem sobre as referências de vocês…

Luiz: A gente só faz o que a gente faz por causa das referências. A minha preferida é a Vanilla. Dentro do ciclismo, gostamos de muitas marcas que tinham essa característica de experimentar. Não malucamente, do diferente pelo diferente, mas de tentar fazer coisas novas no processo, atenção a detalhes e fazer projetos com uma cara de “eu to me dedicando especificamente a isso”. E mostrar para o público: “olha só, tal pessoa precisava disso aqui, então eu fiz tal coisa”. A gente gosta muito dessa personalização a esse nível. Possuímos um clipping interno onde trocamos ideias, informações e referências. Buscamos trazer para o mercado brasileiro algo diferente, novo.

Alice: Eu amo as minhas referências! (risos) Existem coisas lindas acontecendo. A minha preferida no momento é a Field Cycles. Uma marca que tá, agora, prototificando novos tipos de quadros. Eles já fazem coisas perfeitas, sabe, e agora estão buscando novas coisas.

Rosito: Se falarmos em Brasil, o que fazemos é algo muito novo, diferente.

Arthur CCG: E a galera ta preparada pra isso?

Alice: Então, é uma experiência de compra bem diferente… imaginávamos ofertar bicicletas com modelos prontos no site. Um formato que parecia uma ótima ideia no início, mas que não foi. As pessoas não responderam aos modelos prontos, porque, claro: Se algo é feito sob medida, não faz sentido apresentar num modelo pronto. Isso quebra a ideia de ter projetos cada vez mais personalizados. Erramos feio, mas isso acabou sendo muito positivo pois criamos um modelo de venda através da percepção dos nossos clientes.

Luiz: Quando se compete com bicicletas commodity importadas da Ásia temos que comunicar outros atributos que vão além do preço e do estilo. Aí que está a nossa paixão pelos projetos, buscando tornar cada bicicleta única para o ciclista atendendo o corpo e o uso que ele vai ter na bicicleta, além de projetar funcionalidades novas que nem antes imaginava que poderia ter. O que torna uma Spino tão especial para que nos consome, é esse pensar, o tempo que tu dedica para ti e para tua bike que dá orgulho de mostra e pedalar no dia-a-dia.

Alice: Ter uma bicicleta que é confortável e adequado para o teu corpo, no pedalar tu vai sentir muita diferença. Quando nada tiver doendo depois de uma pedalada foda (risos), tu entende o valor de uma bicicleta sob medida.

Spino

Site: www.spino.bike
Facebook: /spinobike
Instagram: @spinobike

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