Outro lado da arquitetura de Barcelona

Falar em Barcelona é falar do Mediterrâneo e de arquitetura gótica; é falar de Ramblas, tapas e vinho bom e barato. Mas a capital catalã é mais do que sangria e mar: é história que fica evidente nas calçadas e nos monumentos espalhados pelos bairros. Todas as fases de sua trajetória estão marcadas em suas ruas: a Cidade Velha, com suas vielas medievais; o assentamento que hoje é o bairro de Barceloneta; o Eixample, projeto sanitarista que, através de seu traçado, permite que Barcelona seja facilmente reconhecida quando vista de cima.

Nos últimos cem anos, eventos como a Exposição Internacional de 1929 e as Olimpíadas de 1992 colocaram a cidade na lista de lugares para se visitar de todo viajante que se preze. A cara de Barcelona como a conhecemos hoje se deve muito ao Modernismo que, na arquitetura catalã, assumiu identidade própria e teve como expoente máximo Antoní Gaudí.

Mas a arquitetura da cidade não é feita só de Gaudí. O roteiro abaixo propõe um percurso por uma cidade em constante evolução. Distâncias não são desculpa para não visitar todos os locais: com apenas 10km na sua maior dimensão, Barcelona é uma cidade para se percorrer a pé – e, se os pés cansarem, o ótimo sistema de metrô cobre virtualmente toda a cidade. Fique atento, pois muitos pontos estão bem próximos de atrações mais conhecidas da cidade. Pegue um mapa e utilize o sistema cartográfico singular que os barceloneses inventaram: Besós/Llobregat (os dois rios que limitam a cidade, no sentido mais Norte-Sul) e Mar/Montanha (no sentido Leste-Oeste). Se der um branco, é só recorrer ao macete: subida = direção das montanhas – descida = direção do mar.

Hospital de la Santa Creu i Sant Pau

Construído entre 1903 e 1930, o Hospital Sant Pau foi projetado por outro grande nome do Modernismo Catalão: Domènech i Montaner. O complexo que se vê hoje funcionou como hospital até o ano de 2009, quando começaram os trabalhos de restauro e de conversão de seus prédios em centros de pesquisa, além de centro cultural. Composto por 27 prédios, o complexo é considerado o maior edifício em estilo Modernista Catalão e, desde 1997, está listado como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Manzana de la Discordia

Querendo ou não, é impossível visitar Barcelona e não passar pela Casa Batlló, considerada por muitos a obra prima de Gaudí. Porém, poucas pessoas sabem que esta quadra, entre Carrer de Aragó e Carrer del Consell del Cent, possui, lado a lado, obras dos cinco arquitetos mais famosos do modernismo catalão. Apesar de nem todas possuírem o estilo modernista, são importantes exemplos da arquitetura da Barcelona de início do século XX. Além da Casa Batlló de Gaudí, encontram-se a casa Lleó Morera, de Domènech i Montaner; a Casa Mulleras, de Enric Sagnier; a Casa Bonet, de Marcel·lià Coquillat; e a Casa Amatller, de Puig i Cadafalch.

Superilla/Supermanzana

Não é preciso entender de arquitetura e urbanismo para reconhecer Barcelona através de um mapa. A malha quadrada que Ildefons Cerdà propôs para a cidade em meados do século XIX, buscando criar uma melhores condições de vida para a população, vem sofrendo críticas nos últimos anos. Uma das cidades com maior número de carros por habitante da Europa, Barcelona sofre de altos níveis de poluição atmosférica e sonora; soma-se a isso sua alta densidade populacional e o resultado é uma cidade pequena com questões de grandes metrópoles. Buscando uma solução para estas questões – ou, ao menos, tentando aliviar o que é mais problemático – o Ajuntament de Barcelona implantou, no fim do ano 2016, a primeira Superilla, resultado do agrupamento de nove quadradas do Eixample (toda a área da cidade transformada por Cerdà), com circulação de carros limitada no seu centro, criando grandes espaços para pedestres, além de mais áreas verdes e equipamentos de lazer para a população. Este projeto-piloto está no bairro de Poble Nou, antiga área industrial de Barcelona e que vem se tornando, na última década, polo atrator de empresas de tecnologia e indústria criativa. A idéia do Ajuntament é implantar mais quatro Superilles (plural de superilla) em outros bairros da cidade, de forma experimental.

É fácil reconhecer Barcelona pela traçado típico do Eixample. Foto: Daily Overview, 2015

Peix

Em um dia de sol na praia (dica: nem só de Barceloneta vive Barcelona), busque o peixe dourado reluzente que o arquiteto Frank Gehry projetou para a Vila Olímpica das Olimpíadas de 1992. Goste ou não, o fato é que é impossível ignorá-lo – e certamente proporcionará muitos likes no Instagram.

Bunkers del Carmel

O pôr do sol nos Bunkers del Carmel é imperdível

Aproveitando-se da sua localização e vista de 360º da cidade, os Bunkers del Carmel (ou Bunkers del Turó de la Rovira) serviram sua função de bunker durante a Guerra Civil Espanhola, até Franco assumir o poder da região, em 1939. Até os anos 1990, a área, esquecida pela cidade, tornou-se uma favela. A partir dos anos 2000, o local foi transformado em parque público e mirador, com informações sobre a história do local e da cidade. Do alto, é possível ver toda a cidade, do Mediterrâneo às montanhas, do rio Llobregat ao rio Besòs. Dica: vá uma hora antes do sol se pôr.

Parc Olímpic

Localizado em Montjuic, o Parque Olímpico das Olimpíadas de 1992 abriga, além do Estádio Olímpico (originalmente construído para a Expo de 1929 e como tentativa de abrigar as Olimpíadas de 1936, perdida para Berlim), outros espaços para prática esportiva que funcionam a pleno vapor até hoje, 25 anos depois dos Jogos. No Palau Sant Jordi, do arquiteto japonês Arata Isozaki, utilizado como arena coberta para diversas modalidades esportivas, recebe, hoje, grandes espetáculos. Outro marco da cidade, a Torre Calatrava, do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, tem função de torre de comunicações, além de funcionar como um relógio de sol. A grande esplanada em frente ao Estádio Olímpico acaba em um mirador com uma vista imperdível no fim do dia.

Por Humberto Piccinini

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