Muito prazer, Kreuzberg

“A maior extravagância cultural que alguém poderia imaginar” – com essas palavras David Bowie resumia, em uma frase, o modo como Berlim era vista nos anos setenta.

Mais de três décadas depois, Berlim continua uma cidade diferente de todas as outras no mundo. É onde o graffiti encontra ruas de paralelepípedo, onde é possível tocar história com as mãos. As pessoas são estilosas e os drinks, baratos. Agora imagine o bairro mais cool da cidade mais cool – sim, estamos falando de Kreuzberg. Como Greenwich Village em Nova York, o local reserva um espaço de amor no coração da capital alemã como um centro cultural. Em Kreuzberg, há arte de rua alternativa, pequenos playgrounds locais, boates que ficam abertas até a madrugada: tudo isso torna um dos mais vibrantes dos 12 distritos na metrópole Berlim.

A terra de Kreuzberg está, geograficamente, entre as menores de Berlim, o que não a impede de ser a localização mais populosa da cidade inteira. Mais de 400 mil pessoas residem nas habitações – Kreuzberg desafia o conceito de construção em larga escala. Outrora cercada por três lados do Muro de Berlim, a área passou por uma gigante transformação. As origens de Kreuzeberg remontam ao arquiteto Karl Friedrich Schinkel, que ajudou a inaugurar o seu centro, o parque Victoria. O local teve notáveis frequentadores, como o filósofo George Friedrich Hegel, que celebrou o seu ultimo aniversário elegantemente com champagne no local que, à época, era considerado interior campesino de Berlim. Schinkel também construiu dentro do parque uma cachoeira de 24 metros de altura, uma réplica em miniatura do Wodospad Podgórnej, cachoeira na Polônia, um ponto turístico frequentemente visitado por berlinenses endinheirados no passado. Hoje, no verão, é comum ver os locais visitando o parque para ver o sol se por enquanto bebem uma garrafa de vinho (invariavelmente, os vinhos consumidos são feitos com as próprias uvas que crescem no declive daquele mesmo parque – sim, berlinenses são hipsters assim).

Kreuzeberg, que significa literamente “montanha da cruz”, surge como bairro a partir do “Grande Ato de Berlim”, em 1920, que dividiu a cidade em 20 distritos. Um destes distritos foi dividido em quatro subúrbios – o que conhecemos hoje por Kreuzberg. Registros históricos mostram que antes da era dos distritos, as areas industrializadas de Kreuzberg revolucionaram a taxa de crescimento em 1860: Kreuzberg sempre foi uma area de trabalhadores e imigrantes. A maioria da arquitetura que vemos no local é originada daquele período. Pequenas empresas promissoras emergiram, transformando o centro da indústria de Berlim. A população aumentou e construções de casas e mais casas tomaram forma. A história de Kreuzberg como a conhecemos hoje – um paraíso artistico – começa muito mais tarde.

Na metade do século XX, enquanto a Alemanha estava se recuperando de duas guerras mundiais, um fluxo imigratório de alemães da Alemanha Oriental e de turcos invadiu o centro de Berlim (o que, inclusive, gerou o apelido “Pequena Istambul”). Dois motivos causaram a mudança: para os turcos (que, hoje, ocupam mais de 30% da população de Kreuzberg), a mudança significa oportunidades de trabalho e o custo barato em um bairro europeu. Cercada por três lados do Muro, Kreuzberg ficou isolada durante quase 30 anos, o que tornou a área uma das mais pobres na cidade. Com a queda do Muro, Kreuzberg se recuperou rapidamente. Para os alemães da Alemanha Oriental, contudo, a partir de uma cláusula de escape na lei alemã, era possível se mudar para Berlim e se eximir do serviço militar do país. Naturalmente, isto atraiu artistas, punks e músicos para uma até então inexpressiva vizinhança. Após a Segunda Guerra, outra lei controlava os aluguéis das habitações em Kreuzberg. Consequentemente, empresários se recusavam a investir no local, o que fazia com que os aluguéis se tornassem baratos, mas de qualidade baixa. Isso explica por que a área atraiu imigrantes pobres que se estabeleceram por lá. No fim de 1960, mais e mais imigrantes, artistas e estudantes se deslocavam para o local; na década de 80, Kreuzberg era o lugar onde Berlim aprendeu a superar o desaparacimento do trabalho industrial, o começo das migrações mundiais e o declínio do sistema de bem-estar social.

Kreuzberg era o lugar onde Berlim aprendeu a superar o desaparacimento do trabalho industrial, o começo das migrações mundiais e o declínio do sistema de bem-estar social.

Curiosamente, entre o agito dos jovens e dos imigrantes, Keuzberg manteve a sua história. Checkpoint Charlie, a passagem entre a Alemanha Oriental e Ocidental, o Museu Judaico (um dos mais importantes em Berlim), o Museu Alemão de Tecnologia (onde é possível aprender sobre a evolução dos trens, por exemplo): tudo está lá. Na história de Kreuzberg, o movimento punk-rock é famoso, bem como outras sub-culturas alternativas na Alemanha – enquanto a juventude é majoritariamente influenciada pelo hip-hop e seus derivados. Um grande festival em Kreuzberg chamado “Carnaval das Culturas” ocorre anualmente: múltiplas heranças e culturas são celebradas em desfiles coloridos pelas ruas, que se enchem de música e barraquinhas de comida. Mais de 900 artistas promovem e participam do festival, que dura quatro dias e é uma gigante plataforma de expressão cultural (existe algo para não se gostar em Kreuzberg?).

Hoje, a área é vista como uma das mais diversificadas localidades em Berlim, considerada um ponto de visita imperdível para os visitante que planejam uma visita à capital. A sua gama de famosos e fascinantes prédios – muitos deles são agências de marketing e design -, sua estruturas e museus são divertidos de observer. E não esqueça de prestar atenção nas pessoas: Kreuzberg acolhe visitantes e os transporta para um mundo paralelo, onde é possível encontrar tribos e descobrir múltiplas e ricas culturas.

 

Por Rafaela Pechansky

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